
Durante muitos anos, o YouTube foi um espaço onde milhares de mulheres encontravam acolhimento. Ali estavam vídeos simples, mostrando a rotina da maternidade, organização da casa, economia doméstica, beleza acessível e os desafios reais da vida. Influenciadoras criavam comunidades baseadas na identificação, e não apenas na venda.
Mas, nos últimos anos, esse cenário mudou.
Diversos canais que nasceram compartilhando o dia a dia passaram a produzir cada vez menos conteúdo para o YouTube. Em muitos casos, a prioridade migrou para plataformas como Instagram e TikTok, onde contratos publicitários milionários, incluindo campanhas de casas de apostas online, passaram a oferecer remunerações muito superiores à monetização tradicional do YouTube.
Embora nem todas tenham abandonado completamente seus canais, muitas reduziram drasticamente a produção de vídeos de rotina, justamente o conteúdo que as tornou conhecidas.
Entre os nomes frequentemente lembrados pelo público estão influenciadoras que começaram mostrando maternidade, família ou cotidiano e hoje concentram seus negócios em publicidade e grandes campanhas nas redes sociais. O debate ganhou ainda mais força após a repercussão da participação de Virginia Fonseca na chamada CPI das Bets, que investigou a atuação de influenciadores na divulgação de plataformas de apostas.
Da inspiração ao incentivo ao jogo
O problema não está apenas na mudança de plataforma.
A maior preocupação é quando a influência construída ao longo de anos passa a ser utilizada para convencer seguidores de que apostas representam uma oportunidade de ganhar dinheiro.
Especialistas alertam que jogos como “Fortune Tiger” (popularmente conhecido como “Jogo do Tigrinho”), Aviator e outros são desenvolvidos para estimular permanência e repetição das apostas, aumentando o risco de perdas financeiras e de desenvolvimento de dependência. A própria CPI das Bets investigou justamente o papel dos influenciadores nesse processo de divulgação.
Enquanto isso, contratos publicitários envolvendo influenciadores movimentam cifras milionárias, criando um contraste que gera indignação entre parte da população.
Quem divulga enriquece. Quem joga, quase sempre perde.
Essa talvez seja a frase que melhor resume o sentimento de muitos brasileiros.
Todos os dias surgem relatos de pessoas que perderam economias, fizeram empréstimos ou acumularam dívidas acreditando que conseguiriam repetir os ganhos exibidos por influenciadores.
É importante lembrar que ganhar dinheiro em apostas depende predominantemente do acaso, e a maioria dos participantes tende a perder ao longo do tempo. Apresentar esses jogos como uma forma de renda pode criar expectativas irreais.
Enquanto isso, quem faz publicidade recebe valores previamente negociados, independentemente do resultado obtido pelos seguidores.
Opinião da jornalista
“A influência digital é uma das maiores formas de poder da atualidade. Quem conquista milhões de seguidores conquista também a confiança dessas pessoas. Por isso, divulgar plataformas de apostas exige uma responsabilidade muito maior do que simplesmente cumprir um contrato publicitário.”
“É impossível ignorar que muitas mulheres conheceram essas criadoras por causa de vídeos sinceros sobre maternidade, rotina e vida real. Eram conteúdos que inspiravam, acolhiam e criavam identificação. Ver parte dessa influência ser direcionada para incentivar jogos de azar levanta um debate necessário sobre ética, responsabilidade social e o verdadeiro impacto dessas campanhas.”
“Nenhum contrato milionário apaga o prejuízo de famílias que entram em dívidas acreditando que também terão a mesma sorte mostrada na tela. Influência não deveria ser apenas um negócio. Também é responsabilidade.”
— Alice Ribeiro, jornalista da Revista Conecta
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